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Vale do São Francisco, 20 de Novembro de 2017
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Postado em 25/04/2017 às 23:27
Jogo da baleia azul: adolescência e vulnerabilidade

Jogo da baleia azul: adolescência e vulnerabilidade

 

Por Guadalupe Braga

O tema é polêmico, mas inevitável. A população está assustada com o chamado “Jogo da baleia azul”, já que só este mês foram registrados vários suicídios de adolescentes que, supostamente participavam do desafio. Mas, será mesmo que é apenas com o jogo que devemos nos preocupar? Será que a questão não exige uma reflexão mais profunda? Claro, a preocupação é válida, já que estamos falando de um jogo mortal, em que os Curadores, administradores do grupo, reúnem virtualmente esses adolescentes para cumprirem 50 etapas, motivando os participantes dentre outros absurdos a automutilação e, tendo o suicídio como a última tarefa a ser cumprida, sob a ameaça de ir atrás do adolescente e seus familiares. No entanto, vale destacar que o suicídio já ocorria entre essa faixa etária de vida, mesmo antes da criação do jogo, ele só escancara um problema já conhecido pelos profissionais da saúde, ele é sintoma de uma sociedade que, há muito tempo, se mostra doente. Então, o correto é tratar a causa, nesse caso, a saúde mental dos envolvidos, pois esta é a única maneira de evitar que outros desafios mascarados de brincadeira atinjam os jovens.

 No que se refere ao suicídio, é possível encontrar diversas barreiras e tabus que enfraquecem o diálogo sobre o problema. No entanto, é crucial falar a respeito já que, em média, a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, onde, segundo uma pesquisa apresentada pela OMS - Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o 8º país no ranking de suicídio, com uma média de 25 pessoas cometendo este ato por dia no país, a maioria jovens.

O risco de suicídio em decorrência da depressão

A depressão é um dos fatores que levam ao suicídio. Mas conceituar depressão não é difícil, e, nesse momento em que as pessoas escancaram o preconceito em torno da doença, é mais importante dizer o que ela não é, pois bem: a depressão não é falta de força de vontade, não é um problema de caráter, não é preguiça, não é manipulação das outras pessoas, não é fraqueza, não é falta de religiosidade. É uma doença como outra qualquer, que há uma desordem neuroquímica da serotonina, estudos comprovam que a serotonina inibe o comportamento violento, agressivo (WILDLOCHER, 1995; VALLEJO –NAGERA, 2002).

Cada vez mais, aumenta o índice de depressão de acordo com o psiquiatra Humberto Corrêa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 90% dos indivíduos que cometem suicídio possuíam alguma doença mental, uma doença multifatorial que envolve vários fatores socioculturais, genéticos, psicodinâmicos, filosófico-existenciais e ambientais, podendo estar relacionando com abuso de álcool, drogas e Transtornos Mentais como: Depressão, Transtorno de Personalidade Boderline, entre outros em que prevaleça a impulsividade e agressividade. Dessa maneira, a combinação do tal jogo da baleia azul e os jovens foi apenas um gatilho para que os pais, autoridades, profissionais de saúde percebesse que os nossos jovens precisam ser melhores assistidos.

 

Mas porque o jogo tem atingido especialmente os jovens?

A adolescência é uma fase de transição da infância para a vida adulta, o corpo está mudando, novos desafios vão surgindo em relação às escolhas da vida, como profissão e orientação sexual. Isso os torna mais vulneráveis, frágeis e inseguros frente a aceitação da sociedade. Muitas famílias exigem uma postura dos seus filhos, não permitindo que eles tenham opiniões, senso crítico, autonomia, impondo suas decisões sem levar em consideração a opinião dos jovens. De forma que ingredientes necessários para formação da autoestima e autoconfiança incluem a convivência familiar e trocas de afetos, segurança e pertencimento, isso implica em como o jovem se percebe e é percebido por seus familiares.  O sentido de confiança refletirá no posicionamento desse jovem e, consequentemente, na sociedade em que se encontra inserido e que diversas vezes o adolescente nem sempre sabe falar do que sente porque não sabe identificar corretamente o sentimento, ficando impossibilitado de traduzir o mal-estar dessa fase. Naturalmente, se adolescente não fala, não é porque não quer se comunicar, é porque não possui habilidades para perceber o que vive no interior de si mesmo. Ele tenta comunicar-se, mas não sabe identificar o que sente e menos ainda verbalizar. Nesse sentido, é levado a agir mais do que a falar, e seu mal-estar traduz-se mais em atos impensados e agressivos do que em palavras. Ele sofre e faz sofrer.

Devem os pais permitir tudo, então?

Não! É preciso impor limites, mas antes disso, faça do diálogo uma ferramenta de uso diário. A questão não é sair proibindo tudo que é inerente à fase da adolescência, também não é permitir tudo, é simplesmente deixar claro para este adolescente os riscos de uma vida social em um mundo cada vez mais perigoso. É ouvir o que ele tem a dizer, gastar tempo explicando os riscos de algumas escolhas. Portanto, é exercer a autoridade de pais sem ser autoritário. Seguem um conjunto de ações e considerações relevantes para facilitar a convivência nessa fase tão conturbada da vida do jovem:

  • Construa uma relação de confiança desde cedo, até as crianças menores compreendem uma relação de respeito, olhe sempre nos olhos quando falar com elas, mostre que se importa com seus problemas.
  • Evite fazer cobranças na presença de outros familiares, ou terceiros para não constranger esse adolescente.
  • Dosar a rigidez com a liberdade vigiada. Fazer o adolescente ter consciência das consequências dos seus atos, dialogando, trazendo exemplos evidentes nos argumentos. A extrema rigidez só tende a afastar a possibilidade de um relacionamento saudável.
  • Deixar de lado a falsa ideia de ser amigo, e sim se fazer pais presentes, participativos, afetuosos e amorosos.
  • A comunicação é uma via de mão dupla: Procure escutar para que se tenha abertura para falar seus pontos de vista também.
  • Evitar sermões e cobranças em tons de imposição.
  • Faça-o refletir, ao invés de impor suas verdades.
  • Estabeleça horários em comum acordo para o acesso à internet no mundo virtual.
  • Não seja extremamente permissivo, isso também traz sensação de estar sendo abandonado.
  • Nada de agressões físicas e, ou verbais. Elas fragilizam os laços entres pais e filhos. Na maioria das vezes causa revolta.

Será mesmo que o vilão é apenas o jogo?

A contemporaneidade nos tem imposto uma vida corrida, trabalhamos várias horas do dia, se não para manter as necessidades básicas de alimentação, é para proporcionar aos nossos filhos algo material que não tivemos. Tudo isso é muito importante, mas não se pode esquecer do humano, do afeto. É preciso, ainda que com um esforço para além do que a sociedade nos permite, gastar tempo com nossos filhos, sermos mais participativos na vida deles. E não quero cometer aqui o erro de afirmar que a culpa da depressão é exclusivamente dos pais, pois existem fatores biológicos que causam a depressão que leva ao suicídio, o que estou dizendo é que podemos perceber antes que ocorra, para pelo menos oferecer um tratamento psicológico a esse jovem.  Por isso, termino afirmando que o X da questão não está no jogo, pois certamente outros jogos como esse aparecerão, a questão está na saúde psíquica, fique atento!  Fortaleça-os, para que eles não caiam nesses tipos de armadilhas. Um jovem que participa de um jogo como este, na verdade está pedindo socorro e provavelmente venha pedindo esse socorro há muito mais tempo e não tenhamos percebido. 




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COMENTÁRIOS / 7 Comentários


Marcelo de Aquino Freire
Postado em 27 de Abril de 2017 às 12:24
Um texto muito bom! Parabéns!
stefania Rodrigues Braga
Postado em 27 de Abril de 2017 às 12:23
Muito bom! Parabéns!
Luciana
Postado em 26 de Abril de 2017 às 20:56
Parabéns! Ótimo texto. Esta prestando um excelente serviço a sociedade. Informação evita preconceitos e motiva as pessoas a buscarem ajuda especializada.
Thales Santos Ferreira
Postado em 26 de Abril de 2017 às 10:34
Muito boa a reflexão, jovens tem cometido suicídio a muito tempo, e esse desafio" baleia azul " foi só o estopim para fazer acordar famílias que vem se distanciando cada vez mais com a tecnologia, e perdendo a tradição da boa educação, deixando tudo por conta da escola e da própria tecnologia através de redes sociais , como por exemplo wats zap , facebook e outros.......achando que ocupando o tempo dessa forma vai resolver o problema, mais pêlo contrário, a vulnerabilidade é maior e facilidade de manipular uma mente que está doente e fraca por não ter justamente i apoio necessário que é papel fundamental da família.
Kátia Fernanda
Postado em 26 de Abril de 2017 às 08:56
Ótimo texto. Muito claro e coerente com a realidade em que vivemos; assim como um alerta para a atenção aos filhos que acabam ficando por conta de jogos, TV e internet.
Marcelo de Aquino Freire
Postado em 26 de Abril de 2017 às 06:27
Maravilhoso texto. De muita importância e esclarecimentos! Parabéns!
stefania Rodrigues Braga
Postado em 26 de Abril de 2017 às 06:20
Muito bom o texto! Parabéns !
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